segunda-feira, 31 de maio de 2010

PINGOS DE LITERATURA

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[...] São meus vizinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam às vezes na rua, com chales púrpuras a rasto; o gato pingado só sai à noitinha, à hora dos morcegos. Mais tímido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e roto.
Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes dêm um pedaço de pão e só se deitam no sepulcro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome. [...]

[...] O gato pingado... Ei-lo que sobe. Cada passo me lembra uma pazada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapéu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sai para os enterros. Deve ser mau, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-no quando ele passa pela rua, esguio, vesgo, de chapéu alto e casaca, rígido clown da morte, que em lugar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lágrimas. [...]
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Raul Brandão in “Os Pobres”

FLORES DA GLÓRIA DA MANHÃ

Belas imagens do livro “Flores da Glória da Manhã”, publicado em 1854 no Japão, sobre a trepadeira bela-manhã, muito difundida em Edo – actual Tóquio. As gravuras são do pintor japonês Hattori Sessai.
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NEAR-DEATH EXPERIENCES



Há vários relatos de pessoas que estiveram em cima da linha limite entre a vida e a morte e voltaram. Alguns dizem ter estado rodeados de intensa claridade; outros em estado de enorme paz interior, enquanto caminhavam para um túnel cheio de luz; ou a ver figuras religiosas, como Jesus e Maomé; ou ainda a flutuar sobre o leito de morte a observar-se naquela cena.
Segundo o Dr. Lakhmir Chawla, médico de cuidados intensivos no centro médico da Universidade George Washington, tais vivências têm explicação fisiológica e não parecem ser metafísicas. Com o uso da electroencefalografia a monitorizar doentes terminais para averiguar se sentem dores, o Dr. Chawla verificou que todos os moribundos têm, pouco antes de morrer, uma “explosão” eléctrica cerebral desencadeada pela falta
de oxigénio, que começa numa parte do cérebro e se espalha em cascata ao resto do órgão. Dura de 30 segundos a 3 minutos e pode explicar as near-death experiences, como são conhecidas na literatura médica internacional.
Por vezes, há reservas em relação a estas explicações fisiológicas, por serem consideradas formas de tirar sentido sagrado à vida. Nada mais errado: tudo o que existe tem mecanismos explicáveis, independentemente serem conhecidos ou desconhecidos, ou de terem intervenção divina ou não, conforme as crenças. As leis da Física e da Biologia não foram criadas pelo homem; já existiam antes dele. A Ciência nunca disse que Deus não existe – fazê-lo seria obscurantismo. Mas negar a Ciência em nome de Deus é igualmente obscurantismo; e já produziu resultados trágicos ao longo da História. Já chega!
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ANDY WARHOL

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BYE BYE EURO

Não se abre o jornal sem sobressalto. Hoje, o Times Online traz um artigo de Robert Watts cujo título é “Grécia Instada a Desistir do Euro”, e onde se noticia que o londrino Centre for Economics and Business Research (CEBR) aconselhou a Grécia a abandonar o euro para escapar à formidável dívida do país. A nova moeda local seria desvalorizada 15% e as dívidas seriam pagas nessa moeda, unilateralmente considerada equivalente à actual. Tal constituiria um desastre para os bancos alemães e franceses.
De acordo com Dough McWilliams, presidente executivo do CEBR, a operação é inevitável. A primeira dúvida é quando acontecerá. A outra é se a Espanha não será obrigada a seguir o mesmo caminho, e provavelmente Portugal e a Itália, embora esta esteja menos sufocada.
E pergunta: será esta a última semana da moeda única? E responde: Com muita probablidade, sim.
Opinião de inglês sobre o euro merece pé atrás. Mas...
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DORSO

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domingo, 30 de maio de 2010

ESCREVER E CRIAR

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[...] O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. Católicos e não católicos eram levados para o cemitério municipal pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos seus parentes, e todos tinham o seu lugar na cidade dos mortos como o haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas desse facto uma pequena questão canónica que o sr. patriarca de Lisboa resolveu do modo mais exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemitério como uma instituição municipal, os párocos benzessem as sepulturas dos que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as daqueles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. Não tinha jamais de intervir a polícia. O ministério do reino estava a esse respeito completamente sossegado em sua secretaria. Finalmente podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquilamente enterrado.
Nisto o sr. presidente do conselho sobrevém na sua forma de hidra e determina em favor da morte católica a criação de um muro semelhante ao que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A câmara municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento à portaria de s.ex.ª e discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito vários alvitres sobre os quais predomina em última análise o do sr. dr. Jardim. [...]

[...] Nós supúnhamos que o característico religioso que distingue um católico dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que cobrem a superfície da terra era um facto dos domínios exclusivos da consciência: que esse carácter desaparecia no limiar do obscuro pórtico infinito onde pára a vida; que o cadáver deixava de ter uma religião, cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á química. Supúnhamos que o cemitério, considerado não só pelo seu lado civil mas mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto cristão, era o campo sagrado do respeito, da tolerância, do esquecimento de toda a discrepância de ideias, de toda a ofensa, de toda a injúria, a mansão eterna do perdão e do amor para todos aqueles que padeceram na terra as amarguras comuns da grande humanidade coberta em toda a redondeza do orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
Estávamos grosseiramente iludidos. O cemitério, o cemitério de Lisboa, pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um recinto de carácter oficial, destinado á fermentação exclusiva das podridões privilegiadas.
Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hidrópico na sua cama, bem ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em água benta pelo compadrio do seu prior, correcta e aparatosamente amortalhado, com as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a comenda no peito, o espadim ao lado, o chapéu armado aos pés, o cordão da ordem terceira de S. Francisco à cinta, vai legitimamente e no uso do mais sagrado direito para o cemitério, a esperar na morte a trombeta da ressurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No dia da chamada geral no vale de Josafat ele porá na cabeça o seu chapéu de bicos e irá tomar o competente lugar na glória eterna, na bancada dos conselheiros, à mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
Mas tu, miserável canalha, tu, concebido no monturo e dado à luz no cano do esgoto, tu que não conheceste pai nem mãe, produto espontâneo da grande imundice anónima, aparecido como a flor da febre à superfície do pântano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, nem matrimónio, nenhum finalmente desses preciosos benefícios que abrem o céu e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos teus capitais, tu, não tinhas no cemitério de Lisboa senão um lugar usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. [...]
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Ramalho Ortigão in "As Farpas"
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VALE A PENA RECORDAR

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João Villaret

Procissão

TARDE DE DOMINGO

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JEANNE D'ARC

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Diz a tradição que, depois de terem terminado a sua armadura, havendo dúvidas sobre como arranjar-lhe uma espada, disse Joana d'Arc: Ide à Capela dos Peregrinos em Santa Catarina de Fierbois e, debaixo de umas pedras atrás do altar, encontrareis a espada que preciso. Assim fizeram e encontraram uma grande espada marcada com cinco cruzes. Seria a espada de Carlos Martel, oferecida aos padres do santuário, depois da Batalha de Poitiers.

No dia 30 de Maio, faz hoje 579 anos, Joana d’Arc foi queimada viva na Praça do Vieux-Marché, em Rouen, e as suas cinzas espalhadas no Sena.
Uma tragédia!...
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O FADO

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Segundo o Banco de Portugal, é condição necessária que os portugueses empobreçam, atravessem o deserto do desemprego, suportem spreads mais elevados nos empréstimo e paguem a redução do défice público para saírem desta crise mais fortes e confiantes; e é bastante provável que tudo isto venha a acontecer, se exceptuarmos a última parte. Mas só assim se atingirá, diz, aquilo a que chama "crescimento sustentável", uma situação em que os bancos vão poder, finalmente, voltar a vender crédito mais barato e de forma regular à economia. Se as famílias não fizerem sacrifícios - se não "mudarem de vida", como disseram vários banqueiros, recentemente - nada feito. O mesmo se aplica às empresas, também elas a braços com uma dívida recorde, com falta de encomendas e com uma situação algo incerta em muitos dos principais parceiros estrangeiros.
Esta é a letra de um fado bem conhecido dos portugueses, e um grande 31; mas não é o “Fado do 31”. É o “Fado dos 350.000.000.000”.
Soube explicar-me?

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COM UM ABRAÇO PARA TODOS OS SPORTINGUISTAS

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Leão rafeiro...

DAVID LAWS RESIGNS OVER EXPENSES CLAIM

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Segundo o Daily Telegraph, David Laws, do Partido Liberal e Secretário do Tesouro do novo governo inglês, recebeu do Parlamento o pagamento de rendas de quartos alugados em casas do seu companheiro no valor de 47.100 euros, violando uma lei aprovada em 2006 que impede os deputados de alugar alojamentos a cônjuges.
Um membro destacado do Partido Liberal mostra-se surpreendido porque Laws, antigo banqueiro, é riquíssimo.
São os tempos...

sábado, 29 de maio de 2010

FOG

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. Mais que o Big Ben ou Westminster, o verdadeiro logotipo de Londres é o nevoeiro.
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ACORDO ORTOGRÁFICO

(Spelling)

As reformas ortográficas têm que se lhe diga, e a que está em vigor por acordo dos países de língua portuguesa, ainda tem mais. Começo por dizer que sou contra. A ortografia e a gramática têm tendência para divergir com o tempo e as homogeneizações internacionais periódicas feitas a martelo não trazem nada de útil do ponto de vista cultural. Mas isso não interessa agora.
A título de curiosidade, veja-se a seguir como evoluiu a ortografia em Portugal entre 1878 e hoje. É a transcrição de parte de uma carta enviada à Real Academia das Ciências por uma comissão representante de cidadãos do Porto, preocupados com a anarquia ortográfica e gramatical.

REPREZENTAÇÃO Á ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS SOBRE A REFÓRMA DA ORTOGRAFIA

Senhores. ― Os abaixo assinados dirijem-se á academia real das ciências em cumprimento de um dever. Numa reunião pública, celebrada nésta cidade em 23 do corrente, fôrão encarregados de, em comissão, pedir a éssa real academia que ocorra a uma necessidade que quázi só d'éla póde esperar satisfação; e vem dezempenhar-se do onrozo encargo.
Paréce-lhes ociozo aduzir argumentos para justificar o pedido. Não tendo a língua uma gramática e um dicionário que póssão dizer-se oficiais, não avendo nórma para a ortografia, nem para a pronúncia, e sendo isso o que se péde á academia, déve considerar-se desnecessária qualquér justificação.
O parecer de que ésta reprezentação vai acompanhada, contem um sistema de ortografia e um método de o pôr em prática, os quais avaliareis como merecêrem. Os abaixo assinados apenas esprímem o dezejo e a esperança de que julgueis dever adòtal-os.
Dando pois ezecução á primeira parte da propósta que termina esse parecer, e que a mencionada reunião aprovou com
escluzão das palavras ou outro que julgue melhór, no cazo de rejeitar este ―, os abaixo assinados pédem á academia real das ciências que, publicando uma gramática e um dicionário ao mesmo tempo ortográfico e prozódico ou ao menos um vocabulário, se digne preenxer éssa lacuna e satisfazer éssa que todos reconhécem e sêntem, ― a de uma ortografia nòrmal.
Não pódem porem deixar de xamar a vóssa atenção para a alteração aludida, que a reunião onde fôrão eleitos, fês no parecer da comissão.
Por éla vê-se que a opinião d'aquéla assembleia é, que a refórma a realizar na ortografia déve ser em sentido sónico.
Dignai-vos acreditar, senhores académicos, em nóssos sentimentos de consideração e respeito.
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Porto, 26 de dezembro de 1878 ― Adriano de Abreu Cardoso Machado, prezidente ― Conde de Samodães ― Manuel Felippe Coelho ― Agostinho da Silva Vieira ― Jozé Barbóza Leão
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AZINHAGA

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QUANDO A TERRA USAVA FRALDA

(Why Didn't Early Earth Freeze? The Mystery Deepens)
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Há 4 mil milhões da anos, quase no início da Terra, a intensidade da radiação solar era cerca de um terço da actual. Estava-se na Era Arcaica, com um mistério não esclarecido: a temperatura devia ser fria suficientemente para congelar todos os oceanos, mas os dados geológicos que temos apontam para a existência de água no estado líquido desde a origem dos mares, há mais de 4 mil milhões de anos.
Carl Sagan admitiu que a quantidade de CO2 na atmosfera fosse muito grande – cerca de 100 vezes a actual – com o efeito estufa daí decorrente a permitir a retenção do calor e a manter a Terra quente. Contudo, investigações da Universidade de Copenhague na Gronelândia, analizando rochas com magnetite e siderite, apontam para concentrações de CO2 atmosférico não superiores a três vezes a actual, insuficientes para compensar a “palidez” do Sol.
Então, Minik Rosing (à esquerda), o líder da investigação dinamarquesa, admite uma de duas hipóteses. Ou a superfície da área oceânica era muito maior e, sendo escura, absorvia mais calor e mantinha a temperatura elevada, ou, como a vida era escassa, havia menor produção de gases que conduzem à formação de nuvens e chegava mais radiação à superfície da Terra.
A teoria de Rosing é provavelmentre apenas parte da explicação e ele admite-o. Só mais um elo para compreender a dinâmica do nosso planeta desde o berço, matéria fascinante - para quem é fascinante.

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TRAVESSA DOS INGLESINHOS

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. Tj Lev

SOCIALISTAS: PREDESTINADOS!

(Socialism)



A Fitch Ratings baixou o rating de crédito da Espanha de AAA para AA+. A agência teve em conta as previsões da evolução económica do país, destacando a falta de flexibilidade do mercado de trabalho e a situação de alguns bancos regionais. A Standard & Poor’s tinha baixado o rating no mês passado para AA, mantendo a Moody’s o nível AAA.
As consequências só serão conhecidas segunda-feira. John Praveen, líder do investimento estratégico da Prudential International Investment Advisers, diz que, se a Moody’s também baixa o rating, a reacção será tremenda: a Espanha é muito maior que a Grécia.
Na Europa, a Grécia, Portugal e Espanha têm governos socialistas. Curioso, não?...

ALTERNATIVA A CAVACO: MAIS BOLIQUEIME, NÃO!

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. Acho bem.
Chega de tabus e burrices.
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

MELANCOLIA

(Sadness)
A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da esperança. Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos.
Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade.
Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos bons efeitos.
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Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'
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UM VIOLINO NO FADO

(A violin playing fado)

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Natalia Juskiewicz

PROFESSORA BRUNA E DEPUTADO RICARDO, OU PIPI E OS GRAVADORES

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A comparação não será a ideal...
Mas pelo menos é elucidativa do tratamento algo desfasado que as nossas autoridades dão a dois casos, um mais grave que mete electrónica e outro mais divertido que envolve nudez. Pipi e os gravadores poder-se-ia chamar este filme.
O deputado Ricardo diz ter praticado "acção directa" para defender a honra, já a professora Bruna perdeu a honra ao praticar a "acção directa" de despir a roupinha.
... podemos deduzir que para vermos o deputado Ricardo Rodrigues ser suspenso de funções seria provavelmente necessário que este pousasse nu para uma revista feminina ou fizesse um strip-tease durante a comissão de inquérito PT/TVI. A mesma comissão onde vemos o Sr. deputado insistentemente apelar à moral e à legalidade.
Posto isto e fazendo o ponto final de situação: ser professora e cumulativamente mostrar o pipi numa revista: NÃO.

Ser deputado e furtar gravadores a jornalistas: SIM.

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Extracto do texto de Tiago Mesquita in Expresso
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A MÃO DO PRIMO

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JOSÉ MOURINHO: COMER A CARNE E ROER OS OSSOS


Não está fácil a saída de Mourinho para o Real. A cláusula de rescisão é de 16 milhões de euros e o clube espanhol diz que o problema é entre o treinador e o Inter. Este fez novo contrato com o special one no ano passado, fazendo dele o técnico mais bem pago de sempre no futebol e, por isso, agora não abre mão da idemnização.
Vai ser preciso mastigar muito negócio. Segundo o Times Online, pode haver facilidades por parte do Inter, se isso se traduzir em vantagens noutras situações; nomeadamente, inflacionando a tranferência de Maicon, por um lado, e incluindo Quaresma no pacote, por outro.
Quaresma foi comprado em 2008 por pressão de Mourinho e o Inter pagou 20 milhões de euros ao Porto por ele. Mas o português quase não foi utilizado pelo treinador. Na segunda metade da época de 2008-2009, foi emprestado ao Chelsea, onde fez só o princípio de um jogo e foi mandado de volta para Itália. Esta época, jogou apenas no início de três jogos pelo Inter. O problema é que ninguém o quer e em Itália está a ganhar 100 mil euros por semana! Not bad!..
Assim, Quaresma é uma espécie de contra-peso nas negociações Real v.s. Inter: levas o Mourinho, mas também levas o Quaresma. Só carne limpa do lombo, não pode ser!

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ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA





Como se explica a um trabalhador que tenha ficado desempregado em Março de 2010 que ele afinal vai pagar imposto sobre os rendimentos auferidos em Janeiro e Fevereiro de 2010 e sobre a indemnização por cessação do contrato de trabalho a uma taxa mais elevada que só entrou em vigor depois de ele ter deixado de trabalhar? Que melhor exemplo pode existir do desdém do governante pelo governado?
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Paulo Pinto de Albuquerque in Diário de Notícias
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Eça - sempre ele - dizia sobre situação do género:
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Pela parte que lhe respeita o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque estará colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.

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Será o fim da linha, digo eu e os que fazem o favor de estar preocupados com o destino desta Ditosa Pátria Minha Amada, da qual já se disse: ...quase cume da cabeça/ da Europa toda, o Reino Lusitano,/ onde a terra se acaba e o Mar começa/ e onde Febo repousa no Oceano.
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A SEMANA “HORRIBILIS" DO GOVERNO DE SÓCRATES - DIÁRIO ECONÓMICO “DIXIT”



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. Relatório anual do Banco de Portugal;
. Sócrates responde ao inquérito parlamentar;
. Ulrich diz que Portugal vai bater na parede;
. Desemprego atinge nível histórico;
. Bancos anunciam corte no crédito;
. Governo corta prémios e progressões no Estado;
. Espanha atrasa TGV;
. Passos 44-28 Sócrates.
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FIM DA LINHA!

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

O MUNDO DE DISRAELI SEGUNDO EÇA

(Benjamin Disraeli)

[...] O melhor resultado de Vivian Grey, foi tornar Disraeli Junior (como ele então se assinava) o favorito de Lady Blenington e do conde d'Orsay, as duas dominantes figuras de Londres d'essa época, e que tinham de sociedade o mais selecto, mais inteligente, mais apetecido salão de Inglaterra.
Estes dous formavam um tipo destinado a reinar. Lady Blenington era uma mulher de graciosa e olímpica beleza, de uma extrema audácia de carácter e de alta energia intelectual. O conde d'Orsay, esse era o homem que durante vinte anos governou a moda, o gosto, as maneiras, com a mesma indisputada autoridade com que hoje o príncipe de Bismarck arbitra na Europa.
Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido aprovados pelo conde d'Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nação que hoje, sem autorização secreta do príncipe de Bismarck, organizasse uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas embaraçadoras, tinha uma filha: e o belo d'Orsay, não sei porquê, nem ele o soube jamais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua resplandecente mãe, a pobre condessa d'Orsay foi como uma pálida lâmpada bruxuleando entre dous astros. Fez então uma cousa sensata e espirituosa: apagou-se de todo, desapareceu. E o conde d'Orsay e Lady Blenington, livres d'aquela senhora que entristecia, regelava as salas com o seu ar honesto e frio, começaram então a cintilar tranquilamente, como constelações conjuntas no firmamento social de Londres. E Londres curvou-se diante d'esta nova e original situação doméstica, como se curvava diante de uma nova sobrecasaca do conde d'Orsay, ou diante de uma decisão literária de Lady Blenington.
Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heróis d'este salão—onde desde logo se mostrara com esse ar de tranquila superioridade, de correcto desdém, que foi um dos segredos da sua força. Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao mármore da chaminé, n'uma pose d'Apolo melancólico, abandonando-se à carícia ambiente dos olhares das damas que viam n'ele a encarnação radiante do poético Vivian Grey. As pessoas mais íntimas, começando por Lady Blenington, já lhe chamavam sempre Vivian, querido Vivian. O conde d'Orsay fizera-lhe o retrato a sépia—honra que ele dava raramente, e a mais apetecida n'esse curioso mundo. [...]
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Eça de Queirós in “Cartas de Inglaterra” (Lord Beaconsfield)
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A figura é uma gravura do Conde d'Orsay publicada na The October Century Magazine
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JARDIM MONOFLORAL

(Monofloral garden).

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Jardim da Teresa

RESPOSTA ATEMPADA AO ELEVADO VOLUME DE TRABALHO

Mafalda Coelho Moreira nasceu em 20 de Janeiro de 1983, é licenciada em Direito, de fresca data – tem de ser! - e, segundo o Correio da Manhã, no ano passado auferiu rendimentos pouco superiores a 1.000 euros mensais.
Mas as dificuldades acabaram, pelo menos por agora: em 6 de Maio, foi nomeada para o gabinete do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Sérgio Tavares Vasques, a fim de realizar consultas e estudos de natureza técnico-jurídica, pelo período de um ano, renovável sucessiva e automaticamente por iguais períodos de tempo, com a remuneração mensal de 4.088 euros, à qual acresce o IVA à taxa em vigor. Segundo o jornal i, é mais do dobro do vencimento de muitos juristas do Ministério mas - diz o governante - justifica-se, dada a necessidade de “dar resposta atempada ao elevado volume de trabalho”. A jovem licenciada deve ser uma verdadeira locomotiva jurídica!
Já teve página no Facebook, mas eclipsou-se. Porque terá sido?
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A AUTORIDADE É POUCA, MAS...

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

O ERRO DE ANTERO DE QUENTAL

(Socialism)
[...] O socialismo não é nem a subversão violenta das instituições e dos costumes, nem a palingenesia messiânica milagrosamente revelada, para acabar para sempre com os males humanos, por este ou aquele inspirado profeta de tal ou qual cenáculo de crentes: e não é uma coisa, exactamente porque não é a outra. Não há nisto paradoxo. Quero dizer que o socialismo não ameaça as instituições e os costumes, que constituem o organismo e a tradição da humanidade, precisamente porque não é uma invenção do pensamento individual um sistema sem raízes históricas, exterior à realidade social, mas sai, pelo contrário, da tradicção e da história, é a própria história e tradicção num período das suas transformações contínuas, um parto da razão colectiva e um fruto natural do mesmo desenvolvimento da sociedade. É por isso que a não ameaça, porque a sociedade não se destrói a si mesma: desenvolve-se e transforma-se; o socialismo não é mais do que a palavra que quadra ao grau de transformação e desenvolvimento do momento actual. O que foi no primeiro quartel deste século o liberalismo, o que três ou quatro séculos antes havia sido a monarquia, e antes cinco ou seis as comunas e o feudalismo, é o que será amanhã (e já hoje começa a ser) o socialismo: um novo período e uma nova forma no organismo das sociedades europeias. Tão inevitável como aqueles, será como eles tão benéfico e tão pouco subversivo, sendo, como eles foram, não um resultado fortuito de opiniões e interesses de indivíduos, mas um facto necessário da Providência imanente na história. [...]
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Antero de Quental in “Oliveira Martins”
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Nota: Este texto, literariamente sedutor, foi escrito há 116 anos. Desde lá a sociedade evoluiu, incluindo experiências falhadas do chamado "socialismo científico", mas não como Antero de Quental previa. A sua previsão foi, essa sim, uma "invenção do pensamento individual". A colectividade das mulheres e dos homens, chamada sociedade, é mais complicada que a soma das complicações pessoais e prega partidas a quem se aventura em profecias sociológicas.
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PRAGA

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SEXTA-FEIRA 13

Sexta-feira 13 é dia de azar; dizem! E quantas vezes se pode ter azar?
No Calendário Gregoriano - que é o nosso - um ano é igual a si mesmo de 400 em 400 anos, isto é, com os mesmos dias de cada mês nos mesmos dias da semana. Tal corresponde a 4.800 meses e outros tantos dias 13, dos quais 668 ocorrem à sexta-feira. A probabilidade é ligeiramente superior a 1 sexta 13 em cada 7 meses, embora a irregularidade seja muito grande. Há anos com uma, com duas e com três sextas 13 - 1998 teve três, 1999 e 2000 apenas uma.
Como ninguém vive quatro séculos como o Matusalém, o número de dias de azar numa vida é altamente personalizado. É uma discriminação da natureza, a juntar a outras.
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O ESCÂNDALO É GERAL!...

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Há crise? Qual crise?

A do povão... "prontes"!

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HÁ OSSOS E OSSOS




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Florentino Pérez foi presidente do Real Madrid de 2000 a 2006, e de 2009 até hoje. Nestes anos triturou 7 treinadores: Vicente Del Bosque, Carlos Queiroz, José Antonio Camacho, Mariano García Remón, Vanderlei Luxemburgo, Juan Ramón López Caro e Manuel Pellegrini.
Agora terá, provavelmente, um osso duro para roer. Veremos quem rói melhor.

A IRONIA NA POLÍTICA

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O PCP não fará mais perguntas ao primeiro-ministro no âmbito do inquérito parlamentar ao 'caso TVI' por considerar que seria «um exercício inútil» dada a «falta selectiva de memória» de José Sócrates, disse o deputado do PCP João Oliveira.
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In SOL
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BRANCO NO PRETO

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António de Sousa

Presidente da Associação Portuguesa de Bancos

terça-feira, 25 de maio de 2010

DÉJÀ VU


[...] Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensavel, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se um novo empréstimo. No ano seguinte averigua-se por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país, e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os juros dos empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit—por uma estranha birra, admissível n'um ser teimoso, mas inexplicável n'um mero saldo negativo, em uma não existência,—aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado.
Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extintas ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para diante outro para trás, ambos destinados a receber o vácuo. N'um dos sacos mete-se a dívida flutuante, no outro mete-se a dívida consolidada. De quando em quando há um relâmpago de júbilo, porque parece por um momento que o alforge do deficit está vazio, isto é, que está sem vácuo dentro: é a divida, que se achava em estado de flutuação no saco da frente, que passou no estado de consolidação para o saco de trás.
A alegria fugaz mas intensa que provem da ilusão d'esta gigajoga vale o dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as vezes que eles mexem na dívida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar de saco, ela cresce.
Pela parte que lhe respeita o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque estará colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague. [...]
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Eça de Queirós in "As Farpas" (Junho de 1882)
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TERESA TAROUCA

(Fado)

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Não sou fadista de raça

EMOÇÕES CONTRADITÓRIAS

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I am very honored to have one of my paintings, "Conflicting Emotions" selected for the cover of “Psicologia” the Journal published by the Portuguese Association of Psychology.
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Carolle Clarck



PARIS

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. Vista da Ponte de Notre Dame

AGUARELA PORTUGUESA

(Portuguese watercolor)
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O risco da dívida portuguesa é o quarto que mais sobe no mundo esta manhã, colocando Portugal na sexta posição da tabela mundial dos países com maior risco de incumprimento, de acordo com os dados da agência de informação financeira Bloomberg.
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Os cortes nas verbas destinadas a prémios de desempenho e progressões facultativas na função pública vão afectar cerca de 45 mil funcionários, que verão a sua carreira ficar parada até que o plano de austeridade decretado pelo Governo seja suspenso ou flexibilizado.

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As contas poupança da Caixa Geral de Depósitos remuneram a uma taxa mais baixa desde ontem. Apesar do preçário dos produtos focados nos jovens, reformados e emigrantes ter sofrido uma redução, as contas poupança-habitação foram as mais penalizadas: os juros caíram para metade.
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A bolsa nacional acentuou a tendência de queda e segue já a perder mais de 3%.
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Mas...
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A crise parece não ter chegado à Assembleia da República. Só para transportes os deputados irão receber mais 25% do que em 2009, ou seja, mais 780 mil euros do que no ano anterior.
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O secretário de Estado dos Transportes reiterou a intenção de lançar um novo concurso para o troço Lisboa-Poceirão, que inclui a terceira travessia do Tejo, dentro de seis meses, e assegurou a construção da totalidade da linha Lisboa-Madrid.
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A OUTRA FACE DE VENEZA

. (Venice)
. Calor, mosquitos e cheiro a "maré baixa"

TOMEM JUIZO!


O secretário de Estado dos Transportes disse ontem não sei quantas burrices, mas destaco três:
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1. O preços dos títulos dos transportes públicos vão ser revistos.
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Leia-se que vão ser aumentados. É o estado social a funcionar em pleno num país pelintra. Quer dizer: quando se exagera na concessão de benesses para que se não tem dinheiro, acaba-se a prejudicar de forma grave exactamente aqueles que foram enganados ao recebê-las.
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2. A realidade é extremamente volátil. Andamos ao sabor dos 'ratings' da República e dos 'spreads'. Hoje em dia, talvez seja mais fácil prever o Totobola do que prever como é que os mercados vão funcionar no dia seguinte.
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É o momento de perguntar a S.Exa porque andam os ratings desta República sul-americana tão voláteis. Será porque gerimos com parcimónia e bom senso os nossos recursos? Se não gerimos, quem o fez?
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3. Temos de ser comedidos nas afirmações, porque não sabemos o que vamos enfrentar.
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Acha S.Exa que o governo tem tido essa preocupação? Que não diz hoje o desmentido amanhã, num ridículo só ultrapassado pela tragédia de tal irresponsabilidade ao lançar os portugueses na maior ânsia, num mar de incertezas quanto ao futuro?
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Vai-te lixar manjerico!
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CONCURSISTA

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segunda-feira, 24 de maio de 2010

SOMOS DOIS?

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Não deveis estranhar se hoje vedes poltrão aquele que ontem vistes tão intrépido: ou a cólera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. Não se trata de uma coragem que a razão haja modelado; foram as circunstâncias que lhe deram consistência; não espanta, pois, que circunstâncias contrárias a tenham transformado.
Esta tão flexível variação e estas contradições que em nós se vêem, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual à sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, já que tão brutal diversidade não poderia atribuir-se a uma só entidade.
Não somente o vento dos acidentes me agita consoante a direcção para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim próprio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achará duas vezes no mesmo estado. Confiro à minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras é porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradições se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma. Envergonhado, insolente; casto, luxurioso; tagarela, taciturno; duro, delicado; inteligente, estúpido; irascível, bonacheirão; mentiroso, veraz; douto, ignorante; generoso, avaro e pródigo: tudo isto vejo em mim de algum modo, conforme para onde me viro.
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Michel de Montaigne, in 'Ensaios - Da Inconstância das Nossas Acções'
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FILOSOFIA ESPANHOLA

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VOLTA JOÃO ESTEVES!...



Já vós ouvistes bem quanto os reis antigos fizeram por encurtar nas despesas suas e do reino, pondo ordenações em si e nos seus, por terem tesouros e serem abastados. Porque sendo o povo rico, diziam eles que o rei era rico, e o rei que tesouro tinha, sempre era prestes para defender seu reino e fazer guerra quando lhe cumprisse, sem agravo e dano de seu povo, dizendo que nenhum era tão seguro de paz que pudesse carecer de fortuna não esperada.
E para encaminharem de fazer tesouro, tinham todos esta maneira: em cada um ano eram os reis certificados, pelos vedores de sua fazenda, das despesas todas que feitas haviam, assim em embaixadas como em todas as outras coisas, que lhe necessariamente convinham fazer, e diziam-lhe o que além d'isto sobejava de suas rendas e direitos, assim em dinheiros como em quaisquer coisas, e logo era ordenado que se comprasse d'eles certo oiro e prata para se pôr no castelo de Lisboa, em uma torre, que para isto fôra feita, que chamavam a torre albarrã. [...]
El-rei Dom Pedro, como reinou, pareceu a alguns que não tinha sentido de ordenar que acrescentassem no tesouro, que os antigos com grande cuidado começaram de guardar. E vendo isto um seu privado, que chamavam João Esteves, houve-o por grande mal, e propôs de lh'o dizer, e falando el-rei com ele uma vez, em coisas de sabor, disse ele a el-rei em esta guisa: Senhor, a mim parece, se vossa mercê fosse, que seria bem de proverdes vossa fazenda, e ver o que se dispender pode, e, do que sobejar, encaminhardes como acrescenteis alguma cousa nos tesouros que vos ficaram de vosso padre e de vossos avós, para fazerdes o que os outros reis fizeram, e para terdes que dispender mais abundosamente se vos alguma necessidade viesse à mão, cá muito mais com vossa honra dispendereis vós acrescentando no tesouro que tendes, que gastar o que os outros reis deixaram, sem pôr n'ele nenhuma coisa.
A estas e outras razões respondeu el-rei que dizia bem, e que lhe pusesse em escrito quanto era o que renderiam seus direitos, e a despesa que se d'elo fazia. [...]
E ordenou logo, como se pusesse cada ano, em oiro, e prata, e moedas, tudo o que sobejasse de suas rendas, nos lugares acostumados onde os reis punham seu haver; porém que dizia el-rei que não fazia pouco quem guardava o tesouro que lhe ficava de outrem e se mantinha nos direitos que havia de seu reino, sem fazendo agravo ao povo, nem lhe tomando do seu nenhuma coisa. [...]

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Fernão Lopes in “Crónica d’El Rei D. Pedro”
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(A figura à direita é de Fernão Lopes)
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