segunda-feira, 19 de maio de 2014

EINSTEIN, OCKHAM E BAPTISTA BASTOS

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A arte ocupa-se do belo e da beleza, seja das formas, como nas artes plásticas; das ideias, como na oratória, ou embaladas em palavras, como na prosa e poesia; do movimento, como no bailado; dos sons e muito mais. A beleza não pode ser definida objectivamente. Como diria Ortega y Gasset depende de nós e da nossa circunstância.
A ciência busca a verdade, as leis que regem o mundo, o modelo do universo. Não tem nada a ver com arte e beleza, porque é objectiva. Será? Há opiniões.
Quase a celebrar 100 anos, o que acontecerá no próximo ano, a teoria da relatividade de Einstein serve para explicar a dúvida. Tal teoria começou por ser isso mesmo—uma concepção intelectual—e só em 1919 foi confirmada experimentalmente por Eddington que observou o desvio da luz de uma estrela pela gravidade do Sol, durante um eclipse. Einstein não estava muito preocupado com a confirmação e quando recebeu a notícia declarou que, se a teoria não tivesse sido confirmada, teria pena de Deus; acrescentando ainda que era demasiado bela para estar errada.
Bela, como?—perguntar-se-á. A resposta sente-se, mas não se explica, como acontece com toda a arte. Há qualquer coisa inexplicável na beleza. Para sentir a diferença, leia-se um texto do Padre António Vieira e outro de Baptista Bastos—a piroseira do burilado do Bastos, autêntica renda de bilros saloia e rebuscada, salta à vista e estraga o parido.
Portanto, a beleza da ciência e das teorias científicas é matéria tão intangível como a beleza da arte. Uma coisa—sine qua non—a enforma: a simplicidade. Um génio, cuja identidade não recordo, disse um dia que, se virmos uma folha de papel cheia de fórmulas complicadas para demonstrar uma teoria, não vale a pena ler porque a teoria está errada. Tal e qual. Aliás, já o frade franciscano Guilherme de Ockham dizia, no Século XIV, que entre várias teorias para explicar um fenómeno físico, deve escolher-se a mais simples porque é a mais provavelmente certa—"navalha de Ockham".
Simplicidade e espírito sintético encerram a beleza—na ciência, na arte e em quase tudo na vida. É difícil fazer carreira a complicar, a não ser que a opção seja a política.
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